BRASIL, Sudeste, BELO HORIZONTE, LIBERDADE, Mulher, de 20 a 25 anos, Portuguese, Italian, Arte e cultura, Moda, Ética, Design de Produto, Raiz da Terra
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    Calçados ecológicos, by myself

    Muitas pessoas me procuraram este ano a respeito de calçados ecologicamente corretos. E foi bem legal, trocamos pontos de vista, crescemos compartilhando informações. Então, resolvi tornar público um dos últimos e-mails que respondi a dúvidas de uma leitora do Eticat, sobre os tais calçados verdes.

    Acredito que as idéias estão jungueanamente no ar, à disposição de qualquer pessoa. Acredito que vai da honestidade e consciência de cada um copiar/roubar/falsificar. E, na boa, acho a maior bobagem quem segura informação. Não é o meu caso. So, check it out, baby! Bem humorado

    Bem, a linha de calçado que projetei não é a mais ecológica que eu poderia fazer.colas à base de água, que eu não usei, por exemplo. Os calçados são do tipo vulcanizado (em que os All Star são simbólicos), com acabamento e solado em borracha natural e cabedal feito em tecidos ecológicos, como jeans orgânico, tencel (vem da polpa da madeira) e sarjas 100% algodão. Naturalmente, a cartela de cores privilegiou tons naturais, risos!, com um toque de vermelho, rosa e menta.
    Veja bem, a matéria-prima é ecológica, mas o processo produtivo é comum - essas duas coisas combinadas já eram feitas nos anos 70, em que não se falava de sustentabilidade, mas de "green design", nos países desenvolvidos. Como no Brasil começamos a dar mais valor a aspectos sustentáveis de meados dos anos 2000 em diante, o nosso processo produtivo está muito defasado em relação aos países que já deram esse "start" há 40 anos atrás.

    Então, hoje, nós podemos fazer um calçado sustentável focando: 1) na matéria-prima ecológica; 2) no envolvimento de projetos sociais. Isso é o mais viável, a princípio. Depois, nós podemos pensar em melhorar o processo produtivo, de modo a reaproveitar recursos naturais dispendidos na produção do calçado, como energia; melhor organização do chão de fábrica; otimização de detalhes produtivos, etc. Depois ainda, pensamos em como reciclá-los - porque já teremos criado um processo produtivo para isso. Um passo de cada vez, ou você pode ficar louca com tanta coisa!

    Há um detalhe importante: pela minha pouca experiência com esse mercado de produtos sustentáveis, eu diria que a maioria dos consumidores não estão dispostos a pagar mais caro por esse tipo de produto. Ainda mais porque há um agravante além do preço mais elevado (decorrente da matéria-prima que costuma custar o dobro da não-ecológica): os produtos brasileiros de cunho sustentável ainda pertencem majoritariamente a estética do "eco-ugly", isto é, utilizam recursos de estilismos que transmitam didaticamente a sua característica eco-sustentável, seja num certo aspecto rústico do material, ou na cartela de cores naturais. A minha linha de calçados encontra-se nessa estética, mesmo eu sabendo que ela está defasada para o mercado externo, mas é assim que eles terão seu valor sustentável reconhecido no nosso mercado. É preciso educar o consumidor, que para esse tipo de produto, é uma minoria. Ou seja, projetar um novo estilo de vida, uma nova estética.

    Portanto, como se trata de um produto relativamente novo no nosso mercado, optei pelo tipo de calçado vulcanizado, que é um dos mais baratos possíveis, e mais bem aceitos por diversos segmentos/targets de mercado. Tanto o adolescente quanto o tiozão usam calçado tipo All Star. Trata-se da minha estratégia para ter mais chances de tornar o produto aceito no mercado. Não quer dizer que seja a melhor estratégia, é só a mais óbvia.

    Sobre o Ecoshoes, tive o prazer de conversar pessoalmente com o Walter Rodrigues sobre o assunto, que havia me contado com um ano antes de lançar sobre seu produto. Muito generoso e aberto o cara. Mas há muitas marcas de calçados eco que pesquisei no primeiro semestre. Na semana que vem, procuro esses arquivos no pc da empresa e te mando alguma coisa.

    Aqui onde moro, Belo Horizonte, há muitos cursos pelo SENAI MODATEC, sobre pesponto, corte, costura e modelagem de calçados. Mas há mais ainda em Nova Serrana, que é um dos maiores pólos de calçado do país, onde meu pai, que é modelista de calçado (e que, pra mim, o cara é um curso), trabalha. Eu estudo Design de Produto, na Escola de Design da UEMG (a do estado de MG), estou no 6º período. Mas trabalho com Design de Moda numa empresa de moda ética (www.raizdaterra.com). Eu recomendo todo mundo fazer um blog, porque pra mim, abriu uma porrada de portas. Meu chefe me achou pelo blog, e muita coisa boa surgiu a partir disso; gente de Milão, de Paris, de Portugal, dos EUA, da Síria já entrou em contato também. Rola muita coisa boa.

    Olha, vc. disse que gosta de calçados mais femininos, bem delicados, tipo perua, né? Bom, tenta ver se é um público que dá valor a esse conceito sustentável... Porque, do pouco que eu sei e estou vendo lá na empresa (são as madames de interior que mais compram nossas roupas), o valor ecológico desse tipo de produto não é muito percebido por essas mulheres. Elas gostam de MODA, de fashion, de brilho, do diferente, feminino, transado. Então, vc. terá um produto que deve ser muito bonito (de modo algum transmitir a estética do "eco-ugly", de catequizar o seu consumidor sobre o valor ecológico, afinal este não é percebido por esse público mesmo) e que, muito provavelmente, será mais caro (em função da matéria-prima, a não ser que vc. use materiais reciclados). É o que está acontecendo com a gente na empresa: a cliente até acha legal esse lance de ecológico e talz, mas ela compra a roupa é pela sensualidade e pelo conforto. Eu suponho que, no seu caso, as rasteirinhas sejam um bom investimento, por serem baratas, usarem o mínimo de materiais e costuras, pode até usar materiais reciclados, desde que tenham algum beneficiamento (um tingimento, um metal, sei lá); acho que vc. consegue uma boa margem de lucro e de aceitabilidade com esse produto.

    Mas não é fácil mesmo projetar esses calçados ecológicos... Vc. tem que delimitar bem o conceito do seu produto, saber o que te inspira, fazer uma ótima pequisa de mercado de concorrentes e similares, conhecer bem a sua consumidora, escolher bem seus fornecedores e parceiros, ter uma boa equipe (melhor ter pessoas boas de serviço que boas máquinas) de produção, saber aonde vc. vai vender. É importante não pular nenhuma etapa do projeto, se não, perde-se muito tempo desenhando bobagem.

    Bom, espero ter ajudado até aqui. Acho que mais do quer ter força de vontade, a gente precisa ser bem focada, objetiva quanto ao briefing do projeto, ter bem claro o que se deve fazer e em que tempo (planejar!), daí é "só" executar o método de desenvolvimento de produto.

    Boa sorte! Alegre

    Abraço,

    Luciana



    Escrito por Lu Duarte às 11h44
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    novo blog de moda ética infantil

    Passei a escrever no blog da Pistache & Banana, marca de moda ética infantil de São Paulo. Então, alguns posts do Eticat e do Pistache Eco Blog farão intercâmbio pela net.

    Pistache EcoBlog: http://pistachebanana.com.br/blog/

    Pistache & Banana: http://www.pistachebanana.com.br/port/

    Exemplo, o post abaixo, sobre o desenvolvimento infantil relacionado ao projeto de produtos de vestuário.

    Em busca da infância

    Por Renata Spiller*

    A percepção da criança em relação ao mundo não se dá da mesma forma que a de um adulto. A sua realidade é seu imaginário. É por meio das ações, do fazer, do pensar e do brincar que vai construindo seu conhecimento e desenvolvendo suas estruturas para se relacionar com o mundo que a cerca. E por que a moda não pode acompanhar este desenvolvimento, com peças que ajudem as crianças em cada fase, que incitem sua criatividade, a experimentação, que as estimulem a criar e transformar, que sejam confortáveis e auxiliem nos seus movimentos?

    Brincando e jogando, a criança tem oportunidade de desenvolver capacidades importantes para sua vida, como atenção, afetividade, o hábito de permanecer concentrado, entre outras. Por meio do brinquedo, ela reinventa o mundo e libera suas fantasias ela satisfaz algumas de suas curiosidades e traduz o mundo dos adultos para a dimensão de suas possibilidades e necessidades.

    E se nos baseássemos na psicologia genética de Jean Piaget para criar roupas para crianças conforme o estágio de seu desenvolvimento, será que poderíamos ter peças para cada fase específica? A resposta é sim, claro. Veja como:


    Até 2 anos: na fase sensório-motora ocorre o desenvolvimento de movimentos, musculatura, sentidos e percepção. É mais apropriado usar peças separadas e não muito amplas, de tecido confortável e com elasticidade. Assim, seus movimentos ficam facilitados, e a criança consegue abrir e fechar os braços, esticar e dobras as pernas ou mexer em objetos.

    De 2 a 4 anos: a criança realiza exercícios motores utilizando as mãos, como encaixar objetos, desmontar e montar coisas intencionalmente. Para essa idade, a roupa pode ser como um quebra-cabeça, com estampas removíveis e que podem ser montadas e desmontadas, acessórios que possam se movimentar na peça, porém que não possam ser retirados, usando pequenas ímãs internos, velcro, zíper. A criança nesta fase gosta de brincar de faz-de-conta para expressar o mundo que está percebendo. O jogo simbólico propicia grande desenvolvimento cognitivo e social. Nessa brincadeira de representação, ela cria inúmeras situações ao pretender ser um animal ou objeto, ou ao utilizar um objeto como se fosse outro, adquirindo a liberdade de sugerir temas e assumir papéis. Quando participa de brincadeiras desse tipo, a criança utiliza a linguagem adequada e participa de atividades importantes, adquire experiência, conhecimento e assimila os hábitos ou costumes locais.

    De 5 a 6 anos: ela começa a levar a sério o jogo. Passa a gostar de movimentar seu corpo, de pular, nadar, correr. Além disso, gosta de ouvir história e recontá-las, de brincar com as letras do alfabeto, ver e recortar figuras de revistas e jornais, de brinquedos de montar e desmontar, escrever, ler; estes são seus novos interesses, além da imitação, que continua presente. Sendo assim, é necessário que as roupas possibilitem maior agilidade, as peças podem ter partes removíveis como mangas e capuz, calças com bolsos removíveis, casacos compridos que ficam curtos, saias que podem se transformar em bermudas, entre outras.

    A crianças se desenvolvem de acordo com os estímulos dados ao seu cérebro e conforme o meio em que vive, sendo assim, os adultos que fazem parte deste meio são responsáveis por grande parte no seu desenvolvimento físico, intelectual e social. Criando produtos adequados ao seu corpo e aos movimentos que realiza, a moda mostra seu papel social e passa de fútil e efêmera para ser vista como coadjuvante na ludicidade do aprender, do desenvolver.

    * Renata Spiller é designer da Costume Design e consultora do gênero infantil da UseFashion. Graduada em Moda pela UCS, e especialista em Moda, Consumo e Comunicação pela PUCRS.
    Fonte: Use Fashion Journal – Moda Profissional. Ano 6, nº 70, novembro 2009, edição brasileira, página 37


    Escrito por Lu Duarte às 21h04
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    Novo museu virtual do calçado

    The Bata Shoe Museum, em Toronto, Canadá

    Agora, além do Bata Shoe Museum que, diga-se de passagem, quando nem eu nem esse museu sonhávamos em existir, meus pais conheceram os donos da Bata (uma multinacional de calçados, meu velho trabalhava como modelista lá) e a dona do futuro museu (esposa do dono da Bata) contava, num jantar, que estava colecionando calçados de todas as épocas e culturas para um futuro museu. (Foi minha mãe, leitora assídua do blog ehehehe, que contou essa história a long time ago). Pois como eu dizia, além do fantástico e completíssimo, real e virtual, Museu da Bata Shoes Organisation, temos o Virtual Shoe Museum, também muito bem-feito, mas ainda anos-luz distante do outro.

    Bata Shoe Musem: http://www.batashoemuseum.ca/

    Virtual Shoe Musem: http://www.virtualshoemuseum.com/vsm/index.php

    Abaixo, alguns calçados que podem ser vistos no Virtual Shoe Museum:



    Escrito por Lu Duarte às 19h58
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    A estética de O Sertanejo: hoje, na Vogue, e ontem (eternamente) em José de Alencar

    Tem um tempão que estou pra falar da moda sertaneja. E aí fui beber na fonte, isto é, na obra "O Sertanejo", do cearense José de Alencar, uma das pilastras da literatura brasileira. Tive o carinho de digitar TODAS as referências ao vestuário que constam no livro Apaixonado.  Mas antes de abordar nossas raízes sertanejas, queria traçar um paralelo com a revista Vogue de outubro de 2009.


    Essa edição, que li de cabo à rabo, está praticamente dedicada ao Nordeste, especificamente ao Ceará. Muitos couros exóticos, estampas de bichos, estilos safári e agreste, tons terrosos e uma pitada de coral (vermelho); muito luxo mimetisando a moda européia. Ou seja, praticamente o estilo descrito por Alencar há 250 anos!!!
    E os editoriais? Estão maravilhosos! Alegre Meu preferido é o "Tramas e Rendas", apesar de não ter nenhuma roupa do Lino Villaventura, um dos nossos estilistas brasileiros que SEMPRE acreditou no estilo nordestino, na riqueza das rendas e das tramas. A mulher desse editorial parece uma viúva-negra, austera e forte.

    Vogue Brasil "Destinos" outubro de 2009, dedicada ao Ceará

    Foto de Jacques Dequeker para o editorial "Tramas e Rendas"

    Foto de Jacques Dequeker para o editorial "Rainha do Deserto"


    ALENCAR, J. O Sertanejo. São Paulo: Martin Claret, 2007.

    [A história se passa em meados de 1760].

    Páginas 12 e 13

    •    “Em geral essa gente adotara um trajo em que a moda portuguesa do tempo era modificada pela influência do sertão. Aqueles, porém, traziam um gibão verde guarnecido de galão branco, uma véstia amarela e calções da mesma cor com botas pretas e chapéus à frederica.”

    •    “Larga catana à ilharga, trabuco a tiracolo e adaga à cinta, além dos pistoletes nos coldres, completavam o equipamento destes indivíduos cuja sinistra catadura já de si inculca mais susto do que as próprias armas.”

    imagem de sertanejo

    •    “Ia de cabo a essa força um homem de exígua figura, magriço, que trajava como os seus companheiros, com a diferença de trazer a farda de pano verde e o chapéu de feltro agaloados de prata.

    •    “... homem de cinqüenta anos, de alto porte e compleição robusta, mostrava pelo chapéu armado e pela farda escarlate com galões dourados ser um capitão-mor de ordenanças.”

    •    “... dama da meia-idade, mas bem conservada e prazenteira (...). O vestido de montar era de fino droguete verde-garrafa com alamares de torçal de ouro, e o chapéu, em forma de touca, ornado de um cocar de plumas tricolores, que ao movimento do cavalo se agitavam em torno da cabeça.”

    •    “Formosa e gentil, esbeltava-lhe o corpo airoso um roupão igual ao de sua mãe com a diferença do ser azul a cor do estofo. Trazia um chapéu de feltro à escuderia, com uma das abas caída e a outra apresilhada um tanto de esguelha pelo broche de pedrarias donde escapava-se uma só e longa pluma branca, que lhe cingia carinhosamente o colo como o pescoço de uma garça.”

    •    “... porém a mão firme da linda escuderia, calçada de comprido guante de seda, que lhe vestia o braço até a curva (...)”

    Página 18

    •    “Vestia o moço um trajo completo de couro de veado, curtido à feição de camurça. Compunha-se de véstia e gibão com lavores de estampa e botões de prata; calções estreitos, bolas compridas e chapéu à espanhola com uma aba revirada à banda e também pregada por um botão de prata. Ainda hoje esse trajo pitoresco e tradicional do sertanejo, e mais especialmente do vaqueiro, conserva com pouca diferença a feição da antiga moda portuguesa, pela qual foram talhadas as primeiras roupas de couro. Ultimamente já costumam fazê-las de feitio moderno, mas não têm o valor e a estimação das outras, cortadas pelo molde primitivo. Talvez o sertanejo, suspensa à cinta, uma catana larga e curta com bainha do mesmo couro da roupa, e na garupa a maleta de pelego de carneiro, com uma clavina atravessada e um maço de relho.”

    Página 21

    •    “Compôs rapidamente, mas com extrema delicadeza, as amplas dobras da saia de montar, para que não ofendessem o casto recato da donzela, descobrindo-lhe a ponta do pé, nem desconsertassem a graciosa postura dessa linda imagem adormecida. Com os olhos enlevados na contemplação da formosa dama, agitava como leque a aba de seu chapéu de couro, refrescando-lhe o rosto.”

    •    “Ajoelhou então o sertanejo à beira do canapé; tirando do peito uma cruz de prata, que trazia ao pescoço, presa a um relicário vermelho, deitou-a por fora do gibão de couro.

    Página 27

    •    “... comeu-a de beijos desde as macias tranças dos cabelos até a ponta dos pequeninos pés, calçados de coturnos de cetim escarlate.”

    Página 31

    •    “Havia fazendeiro, e o capitão-mor Campelo era um deles, que não comia senão em baixela de ouro, e que trazia na libré de seus criados e escravos, bem como nos jazeres de seus cavalos, brocados, veludos e telas de maior custo e primor do que usavam nos paços reais de Lisboa os fidalgos lusitanos.

    Página 37

    •    “O trajo do ancião compunha-se unicamente de uma túnica estreita de algodão, tinta de preto e cuja teia mal urdida era de grosseiro fio. Os pés tinha-os descalços e cobertos de poeira e cinza.”

    imagem de sertanejo

    Página 68

    •    “Trajava a donzela um roupão de sarja, guarnecido de fraldelim pardo, que debuxava a galba palpitante de seu talhe gracioso. A fímbria ao de leve arregaçada por causa da orvalhada, mostrava o pé de menina calçado por um borzeguim preto com o salto escarlate. Trazia, ainda na mão, uma capelina de soprilho com roçais da mesma fazenda e franjas de alvas rendas de Guimarães. Logo que chegou ao quintal cingiu a cabeça com esse toucado, que abrigava-lhe a cútis mimosa dos raios do sol, moldurando-lhe o rosto gentil, como uma grande magnólia silvestre de cuja corola surgisse sua beleza.”

    Página 69

    •    “À exceção da cozinha, cada aposento tinha uma rede de algodão muito alva. No dormitório, a rede faz às vezes de cama; na varanda, faz às vezes de sofá, e é o lugar de honra que o sertanejo, fiel às tradições hospitaleiras do índio, seu antepassado, oferece ao hóspede que Deus lhe envia.”

    Página 98

    •    “D. Flor tirou de dentro do baú galanterias de toda a sorte, das mais finas e custosas que então se vendiam nas lojas e tendas do Recife, onde ainda se mantinham os hábitos de luxo oriental com que as colônias do Brasil ofuscavam a metrópole.”

    •    “D. Flor tirara de dentro da caixa uma peça de escarlatim, e desdobrando lindo estofo de seda, arrugou-o com a mãozinha faceira, e deixou-o cair da cintura como o folho de uma saia.

    •    “D. Flor levou Alina surpresa diante do tremo e aí envolveu-a nas dobras do estofo carmesim.” [obs.: sugere-se aí uma roupa de moulage?]

    Página 99 – 100

    •    “Alina tinha razão. A faixa de chamalote azul que a moça acabava de passar a tiracolo, prendendo-a ao ombro direito com o broche de ouro, dava ao seu talhe airoso um porte regíneo.”

    •    “Já os palanques estavam apinhados de damas e cavalheiros, quando chegou o conde governador, que deu o sinal para começarem os jogos. Então entraram, cada uma de seu lado, duas quadrilhas adereçadas com roupas muito lindas, uma de verde e amarelo, que era a dos pernambucanos, e outra de encarnado e branco, que era a dos lusitanos.”

    Página 103

    •    “ – Olhe, Alina, aquele mais alto, que tem a camisa de seda açafroada. Sabe quem é?”

    Página 140

    •    “Dona Genoveva e as moças, vestidas de amazonas, com seus roupões de fino droguete guarnecido de alamares, trajavam com o mesmo, senão maior, luxo e primor das fidalgas de Lisboa; pois naquele tempo era sobretudo nas casas dos opulentos fazendeiros do interior que se encontravam o fausto e os regalos da vida.

    O capitão-mor ia, como o Agrela e o Arnaldo, vestido à sertaneja, todo de couro, da cabeça aos pés; e empunhava como eles, à guisa de lança, uma aguilhada, que chama hoje de vara de ferrão, e cujo conto apoiava no peito do pé. Trazia também preso ao arção da sela o laço de relho trançado.

    O trajo do fazendeiro distinguia-se dos outros pela riqueza. Era de uma camurça finíssima, preparada de pele de veado, e toda ela bordada de lavores e debuxos elegantes.  A véstia, o gibão e as luvas tinham os botões de ouro cinzelado; e eram do mesmo metal e do mesmo gosto, o broche que prendia a aba revirada do chapéu, e as fivelas dos calções ou perneiras.

    A aguilhada também fazia diferença das outras. A haste cuidadosamente polida, tinha o lustre de um verniz escarlate usado pelos índios. O conto era de prata, como a ponteira, onde engastava o ferrão.”

    Página 141

    •    “Havia naquela época entre os abastados criadores da província essa bizarria de se vestirem de couro à sertaneja, e associarem-se assim por mero recreio às lidas dos vaqueiros, cujo ofício desta arte enobreciam nisso não faziam senão imitar os castelões e fidalgos da Europa que também se trajavam de monteiros, à moda rústica, para ir à caça.”

    Página 161

    •    “Entre os mimos de noivado que tenho de oferecer breve à formosa das formosas, figura um par de sandálias mouriscas de veludo, cravejadas de pérolas; e aqui neste momento, diante destas damas, do Sr. capitão-mor e de quantos me ouvem, os quais todos tomo por testemunhas, faço votos de tirar as solas das sandálias do couro do Dourado, com a minha própria mão!”

    •    “Naturalmente foi de algum boi corredor como este que o gigante fez as suas botas de sete léguas, e as fadas tiraram os seus chapins. Os coturnos de Mercúrio deviam ser do mesmo couro.”

    Página 165 – 166

    •    “D. Flor tinha nessa manhã um pequeno chale escarlate de garça de seda que lhe servia de gravata, e cujas pontas flutuavam-lhe sobre o peito vestido de montar. Lembrando-se que a cor vermelha tem a propriedade de enfurecer os touros, os quais supondo ver o sangue, tornam-se ferozes, a temerária donzela desatou a faixa, e começou a agitá-la como uma bandeirola para irritar as reses e gozar do prazer de afrontar o perigo e escapar-lhe.”



    Escrito por Lu Duarte às 21h32
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    continuação de O Sertanejo...

    imagem de sertanejo

    Página 178

    •    “O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que ele havia picado na pele, sobre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O debuxo de Arnaldo fora entresido com o suco do coipuna, que dá uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os sertanejos tingem suas redes de algodão.”

    Página 179

    •    “Quando parou de extenuado, as luvas de camurça de veado estavam dilaceradas, e as mãos finas e macias vertiam sangue.”

    Página 187

    •    “Pagens do reino, vestidos de garridas librés à moda do tempo, com longas casacas de abas longas, calções e meias brancas, vieram apresentar às damas e convidadas ricas bacias de prata dourada, para lavarem as mãos, entornando água de jarros do mesmo lavor e metal.”

    Página 197

    •    “Rosinha sorriu mostrando dois roçais de pérolas, finos dentes orientais tinha ela todo o busto e uma parte do rosto envolto por um mantéu escarlate, que lhe servia de capuz; mas o que se entrevinha e o que se adivinhava da fisionomia como do talhe, denunciava encantos de fascinar.”

    Página 198

    •    “Eram além daquele sorriso perlado, uns olhos negros e aveludados que cintilavam sob o capuz como estrelas em noite procelosa, uma cintura de vespa, e um pé arqueado que aparecia por baixo da orla da vasquinha parda.”

    Página 211

    •    “A pouco e pouco, a figura sinistra do vaqueiro que a havia desacatado, foi-se desvanecendo, como se as lágrimas lhes delissem as tintas, e da névoa que fez-se na memória da donzela, surgiu o vulto de um menino de sete anos, vestido com um gibão de couro, que lhe servia de opa.

    Este menino era Arnaldo; e o gibão pertencia ao pai, o vaqueiro Louredo, que o deixara de usar por já estar muito velho e surrado, a ponto de andar a rir-se pelos muitos rasgões que tinha nas costas.

    O menino, sôfrego por ter um vestuário de vaqueiro, enfronhara-se naquele fardão; e ficara tão cheio de si, que não se trocaria por um rei, embora dos rasgões do couro lhe saíssem as tiras de uma camisa de chita, que a mãe lhe cosera oito dias antes, e que ele já havia reduzido à trapos.”

    imagem de sertanejos

    Página 217

    •    “Quem sua imaginação via, já não era o menino mal trajado e roto, com a cara coberta de poeira, os cabelos cheios de carrapichos, e as mãos sujas de sangue. Agora aparecia um rapazinho de quinze anos, rude como sertanejo que era, mas trazendo com certo garbo nativo as vestes de couro de veado, que seu pai lhe tinha feito.”

    Página 225

    •    “Mudou, porém, de idéia o Campelo, e resolveu meter Anhamum em uma gaiola de ferro, como se faz com os tigres, e enviá-lo a Lisboa com um procurador, que de sua parte oferecesse a El-rei  essa preciosa curiosidade do sertão, ornado de todos os seus petrechos bélicos e insígnias de chefe.”

    •    “Foi aí que atiraram Anhamum. Ao conduzi-lo, Moirão, que era o cabo da escolta, querendo obrigar o selvagem a deixar o passo grave e consertado para andar mais ligeiro, travou do penacho de plumas de Canindé que o chefe trazia à cabeça pregado com resina de almécega, e puxou-o para diante.”

    Página 232

    •    “A esse tempo já os índios tinham despido o Moirão e distribuído as várias peças de seu vestuário que foram imediatamente reduzidas a tiras para servirem de faixas e cintas guerreiras.” [obs.: a reciclagem aí!]

    Página 235

    •    “Quando a desconhecida ergueu o crepe que a velava de dó, sua beleza deslumbrante produziu nas duas damas m movimento de ingênua admiração.”

    Página 247

    •    “O amarrotar das cambraias a atulharem-se indicou ao sertanejo que Flor despia as suas vestes e ia trocá-las pela roupa de dormir.”

    Página 248 – 249

    •    “Águeda tirou o véu de luto. Sua cabeça meneava-se airosamente agitando os bastos e longos cabelos negros, semelhante à palmeira, que embala a sua verde coma ao sopro da brisa. O corpinho de cambraia, cerrando-lhe a fina cintura, abria-se como uma taça esvazeada para mostrar o colo.

    Tinha as mangas curtas, onde os lindos braços engastavam-se apenas em um molho de rendas; a saia, bordada de crivo, descia-lhe até as curvas deixando nua a extremidade de uma perna bem torneada, e o pé largara a chinela para pisar mais sutil.

    Notando o olhar do mancebo que devorava seus encantos, Águeda fez um movimento de espanto, como caindo em si, e lançou mão de uma mantilha de seda, na qual embuçou-se com gesto vergonhoso.”

    Página 250

    •    “No desafogo de sua história, Águeda abrira aos poucos a mantilha, que afinal resvalara pelas espáduas, deixando nu o colo.”

    Página 255

    •    “(...). Um deles levava nos braços uma mulher, envolta em capa listrada, a debater-se com movimentos desordenados, e soltando estes gritos sufocados (...).”

    Página 260

    •    “Jó pedira a Flor que rompesse um folho de seu vestido.”

    Página 274 – 275

    •    “ – Tu és um amigo fiel, chefe dos Jucás; teus guerreiros terão muitos inimigos a combater, e muitas armas e roupas para levar à sua taba.

    Arnaldo sabia quanto os índios eram ávidos daqueles objetos, principalmente dos veludos e sedas de cores vivas, com que se enfeitavam; por isso, embora tivesse confiança na dedicação do chefe, quis por esse modo estimular a gana dos selvagens.”

    Página 279

    •    “À claridade da alvorada que raiava, pôde-se então divisar um altar já vestido de rica toalha de labirinto e renda, desfraldada sobre o frontal de brocado carmesim na peanha erguia-se a cruz de pau-santo, com a imagem de Cristo lavrada em prata; dos lados estavam as serpentinas igualmente de prata.”

    Página 283 – 284

    •    “No patamar, acabava de assomar o vulto majestoso do capitão-mor Campelo, que trajava a sua farda de veludo escarlate com recamos e galões dourados.

    Os calções eram, como a véstia, de gorgorão branco entretecido de prata; e os coturnos do mais fino cordovão, tinham no salto vermelho a espora de ouro, e na pala do rosto uma fivela de pedrarias.

    Ao lado, pendia-lhe do talim bordado a espada com bainha também de ouro e copos cravejados de diamantes, como o argolão que prendia-lhe ao pescoço a volta de fina cambraia, cujas pontas caíam sobre os folhos estofados da camisa.

    O chapéu de feltro, armado como então usava-se, com a aba da frente apresilhada e um respeitável rabicho com laçada de fita amarela complementavam o trajo de cerimônia do capitão-mor.
    Com ele saíra D. Genoveva, também vestida de gala, com uma roupa mui rica de veludo azul, alcachofrada de ouro, e coberta de gemas preciosas desde o pente do toucado até os sapatos de cetim.”

    •    “A donzela vinha radiante de formosura e graça. Debuxava-lhe o talhe airoso um vestido de lhama de ouro, justo e de estreita roda como usavam-se agora à moda daquele tempo.

    Uma petrina de cetim azul recamada de rubis como uma faixa de céu estrelado, cerrava-lhe a mimosa cintura, e recortando-se em coração, debuxava um colo do mais perfeito cinzel. Eram dessa mesma teia celeste os chapins em que se engastavam as jóias de dois pés de sílfide.

    A túnica de veludo carmesim, atufando-se em dois elegantes falbalás, formava a cauda que a gentil donzela arrastava com o altivo garbo de uma rainha.

    O toucado alto, composto de crespos que borbulhavam uns sobre outros como as ondas de uma cascata, era coroado por um diadema de brilhantes, que cintilavam aos raios do sol nascente, sobre aquela fronte senhoril, como se a aurora brilhasse da terra pra o céu.

    Preso por um airão de ouro, o longo véu de alva e finíssima renda de escócia, todo semeado de raminhos de alecrim e flor de laranja, com lizes de ouro, descia-lhe até os pés, e arfando às auras matutinas, formava-lhe uma nuvem diáfana.

    Pousava a mão calçada com luva de seda branca no braço de Leandro Barbalho, também trajado com apuro e riqueza e pelo mesmo teor do capitão-mor com a diferença de trazer a casaca de cetim verde de Macau.”

    •    “Faziam parte do séquito e seguiam logo após o capitão-mor, três pagens negros como azeviche, vestidos à moda antiga de pelotes de cetim amarelo os quais levavam ao ombro os bacamartes do dono da Oiticica.”

    séquito de "cabras" no sertão

    Página 285

    •    “Os mais antigos lembraram-se de D. Genoveva, quando vinte anos antes, e moça gentil como a filha, o capitão-mor Campelo a conduzia ao altar, vestida com aquelas mesmas roupas e adereços de gala, que serviam agora à D. Flor.”

    Naquele tempo [1765] era assim, os estofos e fazendas tinham tal dura que passavam de pais a filhos e transmitiam-se por muitas gerações. Hoje em dia [1875] os tecidos merecem a mesma fé que as palavras e as ações do homem; são uns ouropéis, de um brilho efêmero, que desaparecem com as modas.”

    Página 291

    •    “Levantou-se além, em torno da linha inimiga a pocema dos Jucás; e uma longa fila de selvagens ornados de penas de canindés e araras coleou pelo campo semelhante a uma serpente monstruosa que enroscasse em seus elos os bandeiristas de Fragoso.”

    Página 292

    •    “(...). A velha Filipa que espiava por uma seteira, dizia ter visto um diabo carreando o morto e persignava-se. Mas a descrição que ela dava do tal diabo que tinha chifres amarelos, e chamas a saírem-lhe do corpo, era de um índio bravo com cocar e trofa de penas

    Agora, vamos reparar em:

    • três capas de discos de música sertaneja;

    • um pôster de bailão sertanejo;

    • um casal dançando música sertaneja;

    • imagens de Lampião e Maria Bonita, no começo do século passado;

    • ilustração (em xilo ou litogravura?), típica da literatura de cordel, de Lampião e Maria Bonita;

    • looks da coleção de Jean Paul Gaultier, de 2007.




    Escrito por Lu Duarte às 21h06
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    Seminário A Cidade sem Outdoor - na Casa do Baile



    Escrito por Lu Duarte às 12h26
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    Seminário Design & Identidade na Escola de Design - UEMG

    As vagas são limitadas mesmo. Quase metade já foram preenchidas. Faça logo sua inscrição! Alegre O evento será bem proveitoso, com um bom dedo de prosa e um cafezinho da hora! Doente



    Escrito por Lu Duarte às 20h37
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    Design de Moda Mineira

    Ontem, no lançamento do livro "Design e Território" da profa. Lia Krucken, rolou um debate inspirador! Jóia Passaram altas coisas sobre moda pela minha cabeça, enquanto eles falavam sobre design de produto e sua relação com o território local.

    O Dijon de Moraes falou em três características do Design Mineiro, que eu anotei rapidamente com umas notas minhas. Segue aí:

    • linha reta e linha curva coexistindo num objeto. A linha reta do trem, da locomotiva, o minério de ferro, o hábito do mineiro dizer "trem" pra significar "coisa", palavra mais comum, vulgar, assimilada de nosso vocabulário. A linha curva das montanhas, os Mares de Morros, a transformação das montanhas pela transposição do minério. As montanhas de jazidas de pedras preciosas.

    vista da roça do meu avô, no sul de Minas

    • o claro e o escuro, o aspecto Barroco. A época da mineração é a base de nossa identidade mineira. Dei um livro pro meu namorado, chamado Receita de Mineiridade, que explora bem esse assunto. Repare nas casas das fazendas, das roças: o muro caiado e o parapeito bem azul, bem rosa, bem forte. As cores caipiras da Tarsila do Amaral. A cidadezinha qualquer do Carlos Drummond de Andrade. O Aleijadinho. As cidades históricas, Ouro Preto, Tiradentes, Mariana, São João Del Rey...

    a casa do vô, o café secando no sol e o meu "menino da porteira" mais amado...

    • o metal e a madeira como material elementar. (Na coleção de verão, eu usei um tanto de metal, e flertei com as madeiras da Casquinha, do RS; nesta coleção de inverno, já comprei lindos botões de madeira e encomendei vários metais no banho silver envelhecido free, um níquel fosco com desgaste revelando um cobre rosado, lindo).

    Mas, se essas são três prerrogativas do Design Made in Minas, o que de fato caracteriza a Moda Mineira?Em dúvida

    Bom, a moda mineira tem muito do Barroco. Há a
    mistura de texturas, a junção de materiais diversos, patchworks, recortes diferenciados. As roupas prezam pelam qualidade, isto é, o acabamento é muito bem feito, essa minunciosidade e detalhamento. Também é fortíssimo o aspecto artesanal, feito à mão, em bordados trabalhosos, bem como em minúsculos pontinhos dados à mão para o caimento perfeito de um tecido. Isso é unanimidade nas marcas mineiras que não vendem para as massas. Estou falando mais do bairro Prado que do Barro Preto, polós de moda de Belo Horizonte.

    Outra coisa em que divago muito, é no estilo da mineira, tão dual... Convivem a moça que reza na igreja aos domingos, que quase não põe saia nem short para sair às ruas, e a que quer ser conquistada e se veste numa sensualidade propositalmente ingênua. Quer não parecer o que é. Está à espera de ser notada. Há muito romantismo e convenções na mineira, um grande amor, babados, rendas, tecidos esvoaçantes, modelagens que se acinturam e se soltam. Não é uma mulher de fendas, tão óbvias. É uma mulher de botões, esperando para serem desabotoados: introspectiva, ansiando. E as cores? Tão femininas, docemente provocativas. São boas filhas, boas mães e amantes amigas, de princípios e segredos. Há muito silêncio na mineira, que externa simplicidade e modéstia, mas que interioriza tudo. Eu diria que são roupas fáceis de modelar e de cortar, mas de beneficiamentos ricos e complexos. A aparência sempre exterioriza uma essência.

    Para saber mais sobre a moda mineira:

    • artigo: "Concentração locacional: confecções mineiras em foco", disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/947/94702708.pdf
    • livro Ronaldo Fraga, da Cosac Naify, disponível pra download em: http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=xECilfVitn4C&oi=fnd&pg=PA89&dq=moda+mineira&ots=2NuIJZp6Ab&sig=j260JTLxE93yhC2duDmSaGQWZZw#v=onepage&q=moda%20mineira&f=false
    • post "O que que a moda mineira tem?", disponível no blog da Lilian Pacce: http://msn.lilianpacce.com.br/home/minas-trend-preview-moda-mineira/
    • site Descubra Minas: http://www.descubraminas.com.br
    • todo e qualquer escrito do Guimarães Rosa e do Drummond.

    No mais, é muito comum ver este texto abaixo, sobre a identidade mineira, em alguns restaurantes de beira de estrada, em estabelecimentos em cidades históricas e/ou pontos turísticos:

    Ser Mineiro (Autor anônimo)

    Ser mineiro é não dizer o que faz nem o que vai fazer.

    É fingir que não sabe aquilo que sabe,

    É falar pouco e escutar muito,

    É passar por bobo e ser inteligente,

    É vender queijo branco.

    Um bom mineiro não laça boi com embira,

    Não dá rasteira no vento,

    Não pisa no escuro,

    Não anda no molhado,

    Não estica conversa com estranhos,

    Só acredita na fumaça quando vê fogo,

    Só arrisca quando tem certeza,

    Não troca um pássaro na mão por dois voando.

    Ser mineiro é dizer 'uai',

    É ser diferente e ter marca registrada,

    É ter história.

    Ser mineiro é ter simplicidade e pureza, humildade e modéstia, coragem e bravura, fidalguia e elegância.

    Ser mineiro é ver o nascer do sol e o brilhar da lua,

    É ouvir o cantar dos pássaros e o mugir do gado,

    É sentir o despertar do tempo e o amanhecer da vida.

    Ser mineiro é ser religioso, conservador, é cultivar as letras e as artes,

    É ser poeta e literato,


    É gostar de política e amar a liberdade,

    É viver nas montanhas,

    É ter vida interior.

     
     
    meus avós, minhas origens

    Minas Gerais, meu território Apaixonado



    Escrito por Lu Duarte às 22h26
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    Diário de bordo: a hora da estrela; a hora e a vez de Augusto Matraga

    Rá!!! Convencido

    "É nóis na fita, manooo!" ahahaha!!! Rindo a toa

    Na hora do almoço, meu chefe me ligou feliz  da vida: "Lu, vamos participar do Fashion Rio!!!"

    Fiquei radiante!!! Muito feliz Depois de amargar com o cancelamento do Ethical Fashion Show no Brasil (o pessoal da organização desse evento só teve competência de divulgar o evento até o mês de julho em revistas tipo Cláudia, mas não teve competência Desanimadode realizar o mesmo!), nada como uma notícia dessa! Jóia Uma mulher que organiza o Fashion Rio esteve lá na Raiz da Terra na semana passada, pra conhecer a marca, o conceito, as roupas e talz. A gente, eu e o chefe, nem tínhamos muita expectativa, porque o evento já estava fechado, todos os espaços vendidos. Mas, como a mulher gostou e havia (há) o interesse em apresentar marcas de cunho sustentável lá, deram um jeitinho e nos arranjaram lá! Com todo o respeito, caro/a leitor/a, mas não há palavra que melhor expresse minha felicidade que... putaquepariu!!! Será minha primeira coleção de moda... no Fashion Rio...! Parece um sonho...

    Daí hoje, já estava combinado d'eu ficar em casa, desenhando o inverno. Porque aqui eu posso: ouvir Pink Floyd no talo (estou numa fase Roger Waters, ouvi Radio Kaos uma sete vezes seguidas, bem anos 80), ficar sem sutiã (ooo liberdade!!!), cheirar minhas tintas, meu óleo de linhaça, minha água raz, desenhar sem parar, sem pensar, sem ninguém pra interromper meu processo criativo! E feliz do jeito que eu estou, tô em êxtase! Alegre Desenhei quase a coleção toda em uma tarde! Agora vou fazer as ilustrações, porque é isso que o povo lá tá precisando ver, uns desenhos conceituais de tirar o fôlego!

    Porque, tá loco, há dois dias atrás, a chefe de produção e o modelista foram ter uma conversa muito franca comigo, "no off", sem ninguém por perto, pra me dizer que eu não era estilista, que eu não sabia desenhar, que era melhor eu copiar... Daí eu ouvi, ouvi, ouvi, quietinha. Tem que ter muita humildade - e também um saco DESSE TAMANHO! De bico - pra ouvir tanta coisa desestimulante. Eu parecia o Rocky Balboa perdendo a luta, sendo espancada pelas palavras... Pô, não é fácil trabalhar!!! Eu vi que eles queriam me ajudar: me instigar a chamar um estilista pra entrar no meu lugar, queriam que eu fosse conversar com o meu chefe pra eu dizer que eu não dô conta do recado. Pode?!?! Tonto

    Pois eu estou dando conta, e vou dar conta. Ou não me chamo Luciana dos Santos Duarte. E tenho dito. Humpf!!!Diabólico Vou mostrar que eu, no ápice do meu ressentimento e da minha segurança, consigo! Fé em Deus e pé na tábua! ehehehe!

    Agora é a minha hora e vez! Bem humorado



    Escrito por Lu Duarte às 19h57
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    Pistache & Banana, um ano depois

    Em vermelho, na imagem, está escrito: "traga uma roupinha que você não vai usar mais para ajudar a ONG Arte na Lata e ganhe 10% de desconto."

    Seria "o Céu" Nas nuvens se toda loja/distribuidor de roupas:

    1. se preocupasse com a reutilização de nossas roupas, destinando-as para as pessoas que estão fora (por razões socio-econômicas) da dinâmica do ciclo da moda;
    2. não precisasse oferecer nenhuma forma de incentivo, como descontos e brindes, para estimular atitudes positivas (reciclagem, reuso, reaproveitamento, etc.) no consumidor/cliente.

    Parabéns pra Pistache & Banana! Ficando velho



    Escrito por Lu Duarte às 06h29
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    Eco chic: o guia de moda ética para a consumidora consciente

    Comprei este livro no feriado, em Pouso Alegre - MG. Foi lançado em julho de 2009 no Brasil; é escrito pela jornalista inglesa Matilda Lee (que escreve para o jornal The Independent e a revista The Ecologist) e tem prefácio de Katherine Hamnett.

    É um raro livro não-picareta Jóia sobre o assunto. Embora a linguagem seja bem jornalística mesmo, como era de se esperar, muitas informações são úteis para um pensamento mais teórico, acadêmico por assim dizer.

    O livro é dividido nos seguintes capítulos:

    1. O trabalho por trás das etiquetas (acabei de ler este; aborda o anonimato dos empregados, a falta de direitos trabalhistas, a nova escravidão, os fast fashion tipo Zara, o trabalho infantil, as auditorias, a origem dos produtos, os sindicatos)

    2. A cultura do descartável (to nesse, na página 38)

    3. Um conto de dois tecidos

    4. Moda perigosa

    5. A ascenção da ecofashion

    6. Tecidos do futuro

    7. O que é justo no trabalho justo

    8. Estilistas pioneiros

    9. O comércio popular pode ser verde?

    10. Moda faça-você-mesma


    Achei legal saber esta informação, que transcrevo abaixo, da página 25:


    Para onde vai seu dinheiro quando você compra roupas?

    Baseada no preço de venda, a Tearfund [organização inglesa de luta contra a pobreza] analisou os custos envolvidos na fabricação de um jeans, verificando o quanto cada etapa recebe:

    • trabalhadores: 0,5%
    • tecido e outros materiais: 13%
    • transporte: 11%
    • loja: 50%
    • marca: 25% (cobre marketing e outras despesas gerais)
    • governo: 15,5%

    Em breve, escrevo mais sobre esse livro! Bem humorado



    Escrito por Lu Duarte às 03h24
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    Trechos de entrevista com Dijon de Moraes, que tive a boa vontade de digitar

    O mineiro Dijon de Moraes passou seis anos estudando na Itália e cursou desenho industrial no Brasil em uma época em que pouco se falava em design hoje, vice-reitor da Universidade do Estado de Minas Gerais, é também professor no mestrado em Design e em cursos de especialização. Colabora como professor visitante em outras universidades do Brasil, ministra palestras em eventos no país e no exterior. Com mais de 300 produtos já produzidos em nível industrial, desde mobiliários a peças cerâmicas, Dijon agora está trabalhando em seu terceiro livro – Metaprojeto: o design do design - , que tem previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2010.

    (...)

    UseFashion: Sua tese de doutorado abordou “Mimese e Mestiçagem”. Comente um pouco sobre seus estudos nessa área.

    Dijon de Moraes: (...) Durante meus estudos, eu tinha percebido que o Brasil já tinha de fato nascido globalizado, pois a nossa cultura foi moldada por três raças distintas, o índio, o branco e o negro. Mas, na verdade, o índio veio de diversas tribos da América do Sul, o branco de diversas origens da Europa e o negro de regiões distintas da África. Tudo isso se soma ainda à quantidade de asiáticos (japoneses, chineses, etc.) que ainda compuseram a heterogeneidade da cultura e raça brasileira, o que Darcy Ribeiro (o brasileiro de maior autoestima que já existiu) nos define como sendo, por isso, uma raça superior. [nota do blog: O Povo Brasileiro, do Darcy, é um dos livros que estou lendo atualmente, pra sacar melhor da nossa identidade e trazê-la pra moda ética.]

    Todos esses imigrantes que vieram para o Brasil com seus costumes, artes e engenhos, se misturaram entre si dando origem a outros costumes, artes e comportamentos. Vindo a configurar, por fim, a rica e exuberante mestiçagem brasileira, que se manifesta em beleza plástica, em culturas distintas e em poéticas próprias.

    Foi então que percebi que toda esta rica cultura híbrida e heterogênea local ainda não tinha sido inserida no design brasileiro [nota do blog: eu discordo fortemente; a coisa não era feita de propósito, isto é, os designers brasileiros não pensavam em fazer design brasileiro porque nem havia esse conceito formado/criado/estudado/consolidado, mas alguns, por intuição quiçá, o faziam muito bem, como o Sérgio Rodrigues]. Este, por sua vez, seguia ainda uma imitação de modelos europeus como referência projetual. Todo este processo de imitação, eu chamei de forma elegante na minha tese de doutorado, de “mimese”, que vem da mímica, da imitação e, por que não dizer, da cópia. [nota do blog: de fato, match point!].

    Tinha percebido, também, que o Brasil era um dos poucos países do mundo a não “sofrer” com processo de globalização então estabelecido, pois, na verdade, no bem e no mal, o mundo é que passou a parecer mais com o Brasil que este com o mundo esta realidade levantou a autoestima brasileira, pois se perdeu a vergonha de ser mestiço, múltiplo, plural e heterogêneo, como é próprio do Brasil, e como é hoje grande parte do mundo ocidental após o processo de globalização. Isto explica também porque o Brasil virou moda no mundo a partir dos anos 90 [nota do blog: na moda, o Brasil vira moda mesmo é no começo dos anos 2000, conforme aponta Erika Palomino – e tudo quanto é escrivinhador de moda que parafraseia ela; bem, talvez não seja uma fonte muito confiável, mas é bem citada], foi justamente pela sua afinidade cultural e estética com a nova era que então se prefigurava. A partir de então, as características brasileiras e suas referências estético-formais começaram a ser utilizadas pelos designers e empresas brasileiras como valor de diferenciação. Por isso me refiro a este tema no meu segundo livro, “Análise do design brasileiro: entre mimese e mestiçagem” [nota do blog: mais conhecido entre os mais íntimos, como o livro da “capa das formiguinhas”], pois foi este o nosso percurso, de primeiro valorizar e imitar o que vinha de fora para depois assumir a nossa mestiçagem local.

    Tela da Tarsila

    Livro do Dijon

    Poltrona do Sérgio

    (...)

    UF: Como você vê atualmente o design brasileiro? Temos uma identidade nacional?

    DM: Hoje eu ando mais contente com o design brasileiro, no sentido que vemos mais presentes na atualidade os elementos, ícones e signos da nossa própria cultura mestiça e plural. Neste sentido, poderíamos dizer que o design brasileiro evoluiu bastante, mas, por outro lado, ainda é muito lenta a inserção deste novo design nas indústrias do país. O Brasil já produz uma boa referência estética e se diferencia através da inovação, mas a maioria acontece em nível de protótipos e em propostas conceituais em concursos da área. É ainda muito tímida a aplicação e o uso do design na produção industrial de massa. Uma das poucas exceções é a moda brasileira, onde já existe uma maior sinergia entre os estilistas e os produtores [nota do blog: pois é mesmo, e sabe por que? Porque 1) o desenvolvimento de produto de moda, sua produção e sua comercialização, ou seja, o ciclo da moda, é muito mais rápido que de qualquer outro tipo de produto; 2) Moda é o segundo maior mercado do Brasil, perdendo pra construção civil; 3) a moda brasileira tem papel de destaque na mídia, aliás, tem é uma portentosa estrutura midiática por trás atuando, coisa que outros tipos de produto não tem; 4) etc.]. Mas, quando viramos os nossos olhos para o mobiliário, os eletrodomésticos, so bens de consumo e os serviços, ainda temos muito o que andar.

    Quanto à questão da identidade, temos que saber que são várias, e não somente uma, as referências brasileiras. Somos um país múltiplo, plural, heterogêneo e espontâneo e é natural que o nosso design também espelhe isto. O que não quer dizer que não haverá elementos próprios e marcantes neste design desta identidade, apesar de múltipla, se distingue como marcante através de energia própria, alegria e espontaneidade como demonstra ser o próprio país. Isto já acontece na música, onde apesar de vários ritmos distintos, se nota uma característica própria local apesar da sua diversidade.

    Poltrona Cadê, da Luciana e do Gerson

    A Favela, dos Campana

    (...)

    UF: Como o design pode auxiliar no desenvolvimento de comunidades sustentáveis?

    DM: As comunidades sustentáveis são sim passíveis de objeto de estudo e de inserção do design, é a própria abrangência desta atividade que nos proporciona isto. Existe hoje uma forte tendência do design auxiliar comunidades artesanais em busca da sustentabilidade socioambiental, seria até estranho se o design não tivesse também se inserido neste processo pois, como disse anteriormente, o design hoje se posiciona mais como um gesto cultural e comportamental que tecnológico e produtivo. O design abrange vários segmentos relativos à produção e gera o que chamamos de “cultura material”. Hoje não falamos somente de projeto, mas de “cultura projetual”, não mais de tecnologia, mas de “cultura tecnológica” e não mais de produção, mas sim da “cultura produtiva”. O designer se coloca como um intermediário entre o produto e o usuário, ele colabora no processo de concepção de novos produtos através da inserção de novas modalidades de uso, de novos diferenciais estéticos, da aplicação de materiais diferenciados, da valorização e inserção da identidade local no produto, da promoção da inovação, bem como da utilização das tecnologias de produção disponíveis. Isto serve para qualquer sistema de produção, seja ele industrial ou semiartesanal. [nota do blog: uma coisa que eu gosto muito na fala do Dijon é que ele explica bem, é didático, abrange bem os conceitos; outra que eu gosto pouco é porque sinto necessidade de exemplos mais práticos na resposta de questões como essa].

    UF: Quais são as características do design contemporâneo?

    [nota do blog: essa é a melhor parte da entrevista! Pena que a história acaba no clímax, queria ler mais...]

    DJ: Primeiro, a busca pela simplificação formal em equilíbrio com a qualidade produtiva.

    Segundo, a aplicação dos fatores semânticos e sensoriais, isto é, o produto deve comunicar-se de forma afetiva e emocional com o seu usuário.

    Terceiro, a capacidade do produto em transmitir rapidamente como devemos utilizá-lo (devido ao excesso de informações hoje presentes).

    Quarto, o respeito à sustentabilidade ambiental (característica fundamental para quem almeja a exportação).

    Quinto, a inserção das características locais e regionais em busca da diferenciação do produto no mercado global. [nota do blog: é sobre essa parte que a profa Lia Krucken vem estudando a fundo].

    Sexto, como grande desafio na atualidade para o design, conseguir projetar um estilo de vida, transmitir uma referência comportamental, inserir valores intangíveis e imateriais nos produtos de produção industrial é claro que, com tudo isso, ficou mais complexa a prática do design hoje que no século passado.


    Foto de slide de powerpoint do Dijon

    Fonte: Use Fashion Journal – Moda Profissional. Ano 6, nº 70, novembro 2009, edição brasileira, página 54.



    Escrito por Lu Duarte às 23h50
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    Excelente entrevista com um dos "manda-chuva" da moda brasileira

    Presidente da Ellus diz que estilistas são "meio preguiçosos"

    ALCINO LEITE NETO
    Editor de Moda da Folha de S.Paulo

    A holding Inbrands tornou-se, nos últimos tempos, uma invejada organização de moda no Brasil. É ela que controla as grifes Ellus, 2nd Floor, Alexandre Herchcovitch, Herchcovitch Jeans e Isabela Capeto, além de comandar, por meio da empresa Luminosidade (cujo sócio é Paulo Borges), as duas principais semanas de moda: o Fashion Rio e a São Paulo Fashion Week, que começa nesta segunda-feira (15).

    Patricia Stavis/Folha Imagem
    O empresário e estilista Nelson Alvarenga no jardim da fábrica da Ellus, em São Paulo
    O empresário e estilista Nelson Alvarenga no jardim da fábrica da Ellus, em São Paulo

    Mas quem controla a Inbrands? De um lado, com 50% do capital da holding, estão os 69 sócios do Banco Pactual. De outro, com iguais 50%, está o estilista e empresário Nelson Alvarenga, que é também presidente do conselho da Ellus, empresa que faturou em 2008 cerca de R$ 300 milhões.

    Em outras palavras, e feitas as contas, Alvarenga, 59, é atualmente o homem mais poderoso da moda brasileira. Além disso, é o único dos pioneiros do jeanswear no país que sobreviveu com sua própria empresa, após Renato Kherlakian vender a Zoomp, e Tufi Duek, a Forum. Qual é o segredo de Alvarenga? "Sou mineirinho, né?", ele responde.

    Nascido em Formiga (MG), o empresário começou sua carreira aos 16 anos na contabilidade da extinta grife Gledson. Em 1972, criou a Ellus, uma das raras empresas de moda no país com mais de 35 anos e cujas coleções são atualmente desenhadas pela estilista Adriana Bozon, mulher do empresário.

    No último mês, Alvarenga inaugurou a loja Ellus and Guests (Ellus e Convidados), uma multimarcas sofisticada.
    Na vida social, o empresário costuma ser mais discreto que os seus colegas fashionistas, mas em conversas é bem mais eloquente e franco.

    Na entrevista a seguir, feita na fábrica da Ellus, Alvarenga lança uma série de torpedos: diz que a moda brasileira ainda está na adolescência e precisa de gente mais bem preparada intelectualmente, que as grifes nacionais continuam a copiar as estrangeiras, que os estilistas "normalmente são meio preguiçosos" e, destemido, afirma que as datas de realização das semanas de moda no país estão "totalmente" erradas.

    Folha - Por que a roupa com design ainda é cara no país?
    Nelson Alvarenga - Por causa do
    custo Brasil. Temos uma das maiores taxas tributárias, um dos juros mais altos do mundo e existe muito desperdício, por razões culturais. Na construção civil, por exemplo, o desperdício no Brasil está em torno de 35%, contra 4% nos EUA.

    Folha - Desperdício de matéria-prima e tempo de trabalho?
    Alvarenga - Desperdício de tudo, falta de racionalização, de inteligência, porque a questão de formação da gestão e da mão-de-obra é fundamental.

    Folha - Onde ocorre sobretudo o desperdício na moda?
    Alvarenga - De mil jeitos. Você já começa a desperdiçar com o nosso
    calendário de moda, que é totalmente errado.

    Folha - As datas de realização dos desfiles estão erradas?
    Alvarenga - Estão. No exterior, entre a realização dos desfiles e o embarque das mercadorias para os compradores transcorrem cerca de
    cinco meses. É um bom tempo para organizar a logística da produção e da distribuição. Aqui, os desfiles de inverno, por exemplo, são feitos em janeiro, e as mercadorias têm que ser entregues no mês seguinte, porque em 1º de março o lojista já quer uma vitrine linda de inverno. Quem tem bola de cristal para saber, com coleções gigantescas, qual vai ser o mix de produtos que os lojistas vão querer? Você é obrigado a fazer um monte de chutes de antecipação de produtos, que geram sobras enormes e desperdícios.

    Folha - Por que não mudam o calendário dos desfiles?
    Alvarenga- Porque tudo isso é decidido
    como no Congresso Nacional, onde o voto de Sergipe vale igual ao voto de São Paulo. A escolha é feita por maioria simples, e a maioria das marcas do calendário de moda não tem uma estrutura que precise de logística de produção, é formada por empresas muito pequenas, que acham que o fato de postergar a lição de casa vai torná-la mais fácil. [nota do blog: isso é bem verdade. Soube que a Colcci já está comercializando sua coleção de inverno 2010, que ainda será apresentada na São Paulo Fashion Week; isso porque a marca tem um volume exorbitante de pedidos, logo, precisa produzir o quanto antes.]

    Folha - Com a Inbrands no controle da SPFW e do Fashion Rio, esse calendário pode mudar?
    Alvarenga - Paulo Borges está trabalhando com as pessoas. Estamos lutando por isso há muito tempo, para dar mais saúde aos negócios da moda brasileira. Do contrário, todo mundo vai quebrar.
    Esse calendário é inviável, é uma herança da era da inflação, quando as pessoas compravam muito pouco e tudo era produzido e vendido muito rapidamente.

    Folha - Que outros problemas o sr. vê na indústria de moda no país?
    Alvarenga -
    O negócio da moda no Brasil, em comparação a outros setores, como o automobilístico, ainda está na adolescência. Só com pessoas com outro nível intelectual e com outra mentalidade é que o país será mais competitivo e terá, inclusive, a chance de poder exportar, de se tornar um "player" no mercado internacional. Além do custo Brasil e dos desperdícios, não temos também uma tradição de design de moda, como na Itália. O Brasil tem tradição de futebol, de bunda, de outras coisas...

    Folha - A moda brasileira ainda copia muito a estrangeira?
    Alvarenga -
    Ah, copia. Por isso mesmo as pessoas ficam retardando o lançamento das coleções, pois têm a esperança de ver até o último desfile da alta costura da semana passada, em Paris [nota do blog: ahahaha isso é vero! o que eu conheci pessoalmente de estilistas que retornaram recentemente de Paris, prontos pra copiar várias coisas, atrasando o processo produtivo nas pequenas empresas, nossa!, não tá escrito...!]. É uma atitude juvenil. É preciso desmamar, buscar o seu estilo. Se você acha que é criativo e tem autoria, não precisa ficar dependendo do que é feito lá fora. É claro que as influências hoje são globais na comunicação, mas não são dois ou três meses que mudarão as coisas, se você tem a sua linha de conduta e o seu eixo de pensamento já formado, em termos de estilo e identidade.

    Folha - Mas roupa com identidade forte vende bem no Brasil?
    Alvarenga -
    Você só tem duas formas de vender: ou preço ou identidade. O que o mundo respeita é isso. O meio termo não quer dizer nada. Precisamos acertar, então, os nossos calendários e atrair para os negócios pessoas mais bem preparadas. Na moda brasileira, ainda tem aquela coisa de o estilista dizer: "A mamãe acha que eu tenho bom gosto, que eu sou genial". Não é bem assim. Para tudo que você faz na vida, tem que ter conteúdo e preparo. O estilista, o suposto ou pretenso artista -pois você tem que questionar a legitimidade de tudo-, normalmente é meio prepotente e meio preguiçoso. Ele não gosta de por a mão na massa. Tem muitos desse tipo no Brasil.

    Folha - Como conciliar a criatividade do estilista e os interesses comerciais do empresário?
    Alvarenga - Há muito o que se trabalhar dos dois lados, seja do investidor, seja do estilista. As coisas lá fora já estão mudando. As empresas têm dado muito foco aos resultados obtidos pelo estilista. Ele precisa agora criar a coleção e acompanhar o negócio até o resultado final das vendas. Não fica mais numa bolha utópica. Tem que saber que está criando para o consumo. As pessoas mais inconsequentes nesse aspecto estão ficando isoladas, pois vivemos num mundo de resultados.

    Folha - O que mais o sr. mudaria nas semanas de moda brasileiras?
    Alvarenga -
    Estamos numa fase de transição no mundo todo. Nos anos 90, o frisson era maior em relação aos desfiles. Hoje, não tem a mesma intensidade. Mesmo porque, de fato, lançamos as coleções e chamamos os clientes para o show-room bem antes dos desfiles. A semana de moda deveria ter a função de ser um lançamento para o lojista. Mas isso está deixando de acontecer. Ainda mais porque ele sente que os desfiles estão ficando muito distantes da vida real. Nós temos consciência disso. Se a gente quer ser o calendário oficial da moda brasileira [com a SPFW e o Fashion Rio], temos que ir consertando aos poucos e voltar para o objetivo, que é trazer o dono da loja. Ele é público-alvo dos desfiles, juntamente com a imprensa.

    Folha - As marcas da Inbrands tiveram queda de vendas com a crise?
    Alvarenga - Tivemos pequena queda nas multimarcas, porque
    o interior ficou muito assustado no final do ano passado com a redução no preço das commodities agrícolas e minerais.

    Folha - Quanto representa para a Ellus a venda em multimarcas do interior do país?
    Alvarenga - Representa
    70% de nossas vendas. O restante vem das nossas lojas próprias. É uma ilusão achar que a moda está concentrada nas grandes cidades. Isso não ocorre em nenhum lugar do mundo. As metrópoles podem ser formadoras de opinião, mas elas não são sustentadoras. Há uma riqueza fabulosa surgindo em toda parte no Brasil, quanto mais o país fica eficaz em agrobusiness.

    Escolhemos a melhor loja multimarcas de cada cidade para torná-la um revendedor autorizado. Se não fizermos isso, viraremos artesãos. Ainda mais que as grandes companhias estrangeiras, as Zaras da vida, já estão de olho no nosso mercado interno e certamente virão para o país. Se não estivermos musculosos o suficiente, se não nos modernizarmos e ganharmos tamanho e competitividade, nós vamos desaparecer.

    Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u581023.shtml



    Escrito por Lu Duarte às 22h58
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    I'll be there...! 2º Seminário Criatividade Educação Tecnologia UFMG



    Escrito por Lu Duarte às 20h14
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    Livro Design e Território (e uma breve leitura pela moda ética)

    Esse é um dos livros que ficam em cima da minha mesa lá na "Raiz da Terra - Brazilian Nature Wear". É bem útil para pensar e conceber um produto (no nosso caso, produto de moda) menos colonial, isto é, respeitoso com a origem brasileira e menos pautado em conceitos/formas/tendências/inspirações/cores européias e americanas. Lembro que há alguns meses, quando li, discuti algumas coisas com meu chefe, como a estrela de valor, que facilitou a visualização da dimensão dos valores de nossos produtos.

    imagem referente a Lia Krucken, 2009

    Podemos perceber aí na estrela que quatro de suas pontas são as mesmas da pirâmide da sustentabilidade (ambiental, econômico, social e cultural). Outro conceito muito bacana apresentado no livro, e que é uma verdadeira "mão na roda" de micro e pequenas empresas, nas quais é difícil visualizar processos, é a cadeia de valor. Abaixo, algumas cadeias dos processos que selecionei da net e que remetem ao universo das confecções de moda.



    A seguir, um artigo sobre o livro, disponível em: http://abcdesign.com.br/teoria/design-e-territorio-valorizando-as-qualidades-dos-produtos-locais/

     

    Design e território: valorizando as qualidades dos produtos locais
    13/07/2009

    artigo por Lia Krucken

    Ao tomarmos um bom vinho francês ou italiano experimentamos uma qualidade ligada a um território, a uma nação e a tradições incorporadas pela sociedade ao longo dos anos. A França e a Itália são importantes referências na promoção do reconhecimento de seus produtos, investindo fortemente em ações de conscientização do consumidor, no fortalecimento da imagem destas mercadorias e dos territórios de origem e no desenvolvimento de serviços relacionados, como hotéis e restaurantes. Não por acaso, muitos produtos franceses e italianos têm reputação tão positiva.

    Para exprimir essa ligação entre o produto, o território e as pessoas que o produzem, o francês usa o conceito de “produtos do terroir”.  Terroir é um território caracterizado pela interação com o homem ao longo dos anos, cujos recursos e produtos são fortemente determinados pelas condições do solo, do clima e culturais. O termo que mais se aproxima na língua portuguesa seria “produto local”.

    Observamos, também, uma crescente tendência desta valorização no Brasil, como no caso dos famosos Doces de Pelotas, da cachaça de Luís Alves e de Salinas, do Café do Cerrado Mineiro, dos vinhos do Vale dos Vinhedos e do queijo do Serro em Minas Gerais, além de diversos outros produtos que trazem em si características dos territórios de origem e das comunidades que os produziram (Fig 1.).

    Fig. 1. O produto é parte do território e da comunidade que o produziu.

     

    Mas o que realmente diferencia estes produtos? Em dúvidaQuais elementos os tornam especiais? Há um valor emocional associado aos produtos, que respondem ao interesse dos consumidores pelo ‘autêntico’ e ‘original’. Assim, o consumo torna-se uma experiência única, um ritual de apreciação de qualidades ímpares. O mesmo ocorre na hotelaria e gastronomia. Neste caso, a intenção é criar momentos memoráveis, os quais o cliente deseje repetir e compartilhar com outras pessoas.

    Porém não basta um produto ter alta qualidade; é preciso que seus atributos sejam percebidos com sucesso. Ao escolher um produto, as pessoas buscam informações que possibilitem rastrear e identificar suas qualidades.

    O design pode contribuir significativamente neste contexto, buscando formas para tornar visível à sociedade a história por trás dos produtos. Contar a “história do produto” significa comunicar elementos históricos, culturais e sociais associados, possibilitando ao consumidor avaliar e apreciar o produto de forma mais ampla - considerando, por exemplo, os serviços ambientais embutidos no próprio produto. O consumidor consciente pode se perguntar, por exemplo: Como os recursos ambientais foram utilizados na produção? Qual impacto ambiental, social e econômico deste produto? Essa produção ativa o território de origem, preservando e valorizando saberes tradicionais?Em dúvida

    Ao incorporar esses valores no design de produtos, serviços e embalagens, o designer pode contribuir para a adoção e a valorização de práticas sustentáveis na produção, na comercialização e no próprio consumo (Fig. 2).

    Figura 2. A qualidade ampliada envolve o produto, o território e as relações entre produtores e consumidores.

    Para que a comunicação esteja alinhada à mensagem que se deseja transmitir é essencial considerar alguns aspectos, como reforçam Krucken e Trusen (2009):

    1. as imagens e os textos são compreendidos fácil e rapidamente?
    2. a linguagem utilizada é adequada ao público-alvo?
    3. a mensagem motiva e mostra coerência em relação aos valores dos produtores e aos dos consumidores?
    4. o meio de comunicação apoia a mensagem, oferecendo outros elementos de referência? (ex: uma embalagem que permite o uso de refil comunica valores relacionados a sustentabilidade e podem fortalecer a imagem do produto).

    Ao escolher um produto, valorizando as tradições que neles estão embutidas, o consumidor torna-se parte desse ritual de produção e consumo, que começa na terra e continua nas nossas mesas. É importante considerar que a qualidade do território, que está presente no produto, também se estende ao consumo. O consumidor pode resgatar sua ligação com a terra, escolhendo e promovendo produtos, apreciando e dando continuidade aos seus significados.

    Para brindarmos com um bom vinho, por exemplo, foi necessário as uvas fossem selecionadas, cultivadas, processadas. Foi necessário colhê-las, produzir a bebida, envasá-la, rotulá-la, transportá-la até chegar a nós. Sem contar, a chuva, o sol e o conhecimento que foram precisos para resultar na qualidade do vinho. Às vezes, na correria do dia-a-dia, não percebemos o conjunto de elemento que um “simples” brinde carrega.

    É, apreciar a qualidade, exige competência: requer tempo para ser produzida e apreciada. Em outras palavras, precisamos lentificar os tempos e os modos nos quais nos relacionamos com as pessoas, as lugares e aos bens. Já existe um movimento nesse sentido: Slow Food.  Afinal, a comida sempre foi, ao longo da nossa existência, um grande motivo para reunir pessoas, conversar e apreciar as coisas boas da vida.

    O design - como um importante aliado na busca pela qualidade de vida - pode contribuir efetivamente no desenvolvimento e na comunicação de soluções inovadoras e sustentáveis, aproximando produtores e consumidores, dando transparência e fortalecendo os valores que perpassam a produção e o consumo.

    Lia Krucken é autora do livro “Design e território: valorização de identidades e produtos locais”. É doutora em Eng. de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina, com pesquisa junto ao Politecnico di Milano. É professora na Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais.

    Morou na França e na Itália e vem trabalhando com a valorização de produtos locais desde 1999, no Brasil e no exterior. Organiza workshops e realiza projeto com comunidades, visando valorizar produtos e territórios. Atualmente mora em Belo Horizonte. contato@designterritorio.com

    Para saber mais:

    - O livro Design e território: valorização de identidades e produtos locais, publicado pela Nobel, apresenta o design como um grande aliado na valorização de identidades, produtos e territórios, trazendo estudos de casos e experiências no Brasil, na Itália e na França. http://www.editoranobel.com.br/detalhepro.asp?produto=2016290

    - Conheça o movimento internacional Slow Food: Nascido na Itália, este movimento tem como propósito proteger e valorizar os produtos locais, bem como a sociobiodiversidade que os originam. Contribui, desta forma, para a proteção e a valorização da identidade e da sustentabilidade dos territórios e das suas populações.  www.slowfoodbrasil.com

    - KRUCKEN, L.; TRUSEN, C. A comunicação da sustentabilidade em produtos e serviços. In: DE MORAES, D., KRUCKEN, L. Design e sustentabilidade. Coleção Cadernos de Estudos Avançados em Design, Belo Horizonte: EdUEMG, 2009. Disponível para download: www.tcdesign.uemb.br

    Bom, na moda ética, nós temos o conceito de slow fashion, que a Kate Fletcher, maior referência na área de moda sustentável, vem estudando nos últimos anos.

    Devagar site da Kate Fletcher: http://www.katefletcher.com/

    Devagar link de seus estudos sobre slow fashion: http://fashioninganethicalindustry.org/resources/teachingmaterials/slowarticle/

    Devagar baixe um capítulo sobre Slow Fashion: http://fashioninganethicalindustry.org/!file/SlowFashion.pdf/

    Devagar site de sua consultoria, intitulada Slow Fashion, que trata de moda sustentável: http://www.slowfashion.org

    Há um artigo razoável que menciona o slow fashion, em português, de Janine da Silva Michel, intitulado "Construção da identidade regional como estratégia competitiva", disponível em: http://www.t-chic.com.br/arquivo/Construcaoidentidaderegional.pdf

    Por fim, vejamos esse último esquema do sistema da moda, considerando a reciclagem e a reutilização.



    Escrito por Lu Duarte às 00h57
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